Dia da Consciência Negra

Por adminATF

No dia 20 de novembro, comemora-se o dia da Consciência Negra e é necessário entender o seu significado. Ela foi escolhida por ser a data da morte de Zumbi dos Palmares – uma das maiores lideranças negras no país. Zumbi lutou contra a escravização de negros e liderou uma região do tamanho de Portugal, com aproximadamente 30 mil habitantes, no século XVII, na região entre Pernambuco e Alagoas.

A luta de Zumbi faz sentido para os dias atuais? Vivemos ainda em uma sociedade racista? Algumas famílias sofrem com o racismo? Como podemos mensurar isso? É simples. Se os piores empregos, as piores moradias, os desempregados, os habitantes das prisões e dos cemitérios, ainda jovens, são majoritariamente negros, então, existe racismo. Se a polícia para em uma blitz ou prende com mais frequência jovens negros que supostamente cometeram as mesmas condutas que brancos, isso é mais um sinal de racismo. Se nas filas dos empregos, os negros são preteridos com relação aos brancos em função da sua cor da pele, isso é racismo. Se você concorda com as premissas supracitadas, então você aquiesce que todo racismo é institucional. Mas de onde vem essa ideia de racismo? Ela é um resultado direto de uma abstração: a raça. É… não existe raça. Ela foi uma criação para dominação de uns sobre outros. Somos todos humanos, brancos, negros, indígenas, asiáticos etc. Só possuímos culturas diferentes etc.

Em particular, no Brasil, os africanos foram escravizados e suas culturas, seus hábitos, linguagens, religiões etc foram fortemente atacados. Foram presos em cativeiros e perderam totalmente o contato com seus ancestrais, tendo-lhes sido retirado até o sentido de humanidade. Foram tratados pelo dominador como “coisa”, bichos, animais selvagens que precisavam ser domesticados. Depois de mais de 300 anos de escravização, esses negros ainda não foram contemplados por uma política verdadeiramente inclusiva como forma de reparação de danos. Por isso, a favela é a nova senzala que fica rodeada de capitães do mato para mantê-los longe das casas dos senhores.

Muitos fatores colaboram para a manutenção desse processo. Dentre eles, está a educação. As crianças nas nossas escolas continuam aprendendo que Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil e nas Universidades continuam ensinando que o saber científico e correto, “neutro”, é o do Europeu. Os autores negros não entram nas bibliografias dos cursos (epistemicídio), bem como as histórias de resistências negras e indígenas estão ausentes dos livros escolares e universitários (historicídio). Em resumo, vigora um epistemicídio associado a um historicídio que colaboram para o reforço do racismo reinante em nossa sociedade, maléfico para todos, mas sobretudo, para crianças negras, que se deparam com o racismo desde os primeiros anos, nas escolas e nas televisões. Como mudar esse cenário? É necessário criarmos uma sociedade igualitária, horizontal, com repartição das propriedades, das terras. Queremos viver em um mundo onde a cor da pele não faça a menor diferença, pois nessa sociedade não haverá autoridade, patrão, mandante. Assim, não haverá racismo – um racismo institucional. A luta de Zumbi, da Ganga Zumba, de Dandara, de Carolina Maria de Jesus ainda persiste.

wallaceDeMoraes

Professor Wallace de Moraes

Professor Associado do Departamento de Ciência Política e dos Programas de Pós-Graduação em Filosofia (PPGF) e História Comparada (PPGHC) da UFRJ.

Quer ver como foi a LIVE “Racismo na atualidade”?

Nós gravamos a LIVE com o Prof. Wallace de Moraes em 02/09/2020: